• Um caldeirão de pura cultura baiana

    Forró na Bahia

    Africania apresenta ´’ORI” e seu Candomblé contemporâneo





    Os ritmos, os cânticos e os instrumentos originários na mãe África estão presentes fortemente na música feita na Bahia desde tempos remotos até a atualidade. Uma influência que escorre para a música brasileira em diversos caminhos. Nem sempre, no entanto, estão presentes da mesma forma os atributos místicos e a ancestralidade, parte também fundamental fruto da diáspora negra. É esse universo umbilical dos ritmos à ancestralidade, tendo as divindades do Candomblé como referência e reverência, que dá forma a “ORI”, disco de estreia do grupo Africania. 

    Original de Feira de Santana, o grupo está lançando o projeto nesta primeira semana de abril, no formato físico (CD) e disponibilizado para download e streaming no site africania.com.br. Três shows marcam o lançamento: dia 8 de abril no Cine Theatro Cachoeirano às 20 horas, em Cachoeira; 22 de abril no Teatro Dona Cano às 19 horas, em Santo Amaro; e no dia seguinte, 23 de abril, no Centro de Cultura Amélio Amorim às 20 horas, em Feira de Santana. Todos com entrada franca. 

    As apresentações trazem uma característica particular, com utilização de multi-linguagens artísticas num diálogo que traz à tona a atmosfera presente no disco. Além da musicalidade do grupo Africania, os shows contarão com a performance de Flávia Pedroso, projeções de Augusto Bortolini, cenário de Tina Melo e figurinos de Flávia Sacramento. As multi-linguagens são frutos das oficinas de Expressão Corporal, Experimentações Audiovisuais e Ritmia Sagrada desenvolvidas nas três mesmas cidades entre o mês de fevereiro e abril. O projeto todo tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.

    ORI - Gravado em 2008 e só agora disponível em formato físico e digital, o trabalho é fruto da experiência de Bel da Bonita, tanto como músico quanto como indivíduo. Percussionista auto-didata, ele atuou na década de 90 na “Banda da Paz”, acompanhado diversos artistas por todo o país, como Gilberto Gil, Dominguinhos, Nando Cordel, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, dentre outros, além de ter produzido trilhas sonoras para filmes. À frente do Africania já gravou sete discos, nenhum deles, porém, lançado até então. “ORI” é o primeiro que vem à luz. 

    Bel da Bonita é autor das doze faixas do álbum. Sozinho ou em parceria (apenas em três divide a autoria com Ramiro Barbosa, José Rodrigues e Carlos Matusalém), ele é o centro aglutinador de “ORI”, compondo, cantando, tocando percussão e até teclados em algumas faixas. É também o produtor musical e o responsável pelos arranjos ao lado de Júnior Torres. Além dele, o Africania conta com Ramiro Barbosa na voz de quase todas as faixas (menos em "Nas Matas") e agogô em "Opanijé"; Júnior Torres no piano elétrico e teclados, Caio Ramires no baixo elétrico e acústico e Diego Ramires na bateria.

    As doze faixas do álbum trazem reverências ao universo dos terreiros, de sua relação com a natureza, como em “Nas Matas”, “Cachoeira” e “Canoa Canoa”, às próprias entidades, com Exu, Ogum, Ossain, Xangô, Nanã, Obá e Oxalá diretamente homenageados. “Esse trabalho pra mim ecoa qual uma cerimônia em respeito às divindades do panteão Africano”. A sofisticação rítmica das composições nos fixa à terra, as harmonias e melodias nos fazem imergir em ambientes etéreos. Cinco das doze faixas ganham uma dimensão ainda mais sacra com citações diretas de cantos ancestrais yorubá originais. Para Bonita, “ORI” é um disco de devoção ao Candomblé. “Queria tocar algo relacionado à minha fé”.

    Os caminhos traçados nos 58 minutos do trabalho trazem fortes influências de afrojazz, ressaltadas pelos timbres de pianos Rhodes – empregados com destreza em quase todas as músicas. Como se não bastasse, a utilização dos recursos eletrônicos é essencial para a criação de um clima surrealista. “Tem uma mescla nesse disco de três vertentes que é o jazz, o candomblé (a música sacra) e a música eletrônica: sintetizadores, vozes, tudo mexido em delays- o dub”, resume. As influências musicais que permeiam o trabalho vão de Miles Davis e Elis Regina à Isaac Reis, além de grandes percussionistas baianos lembrados pelo próprio Bonita: Carlinhos Brown, Geraldo Jeje, Gabi Guedes, Walter Cruz, Tonico Freitas, dentre outros.

    Origem - As referências afro-baianas e do candomblé foram captadas em diversos momentos da trajetória de Bonita, com influências de diversas localidades. Desde o despertar, em 2003, em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo Baiano, quando foi gravar com Jurandir Rabelo e visitou um terreiro. A partir dali resolveu aplicar as linhas, toque e claves do Candomblé com instrumentos incomuns como panelas, baldes, tampas e etc. “Soava como um Candomblé Psicodélico!!”, lembra Bel da Bonita.

    Mas o embrião do álbum foi a cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, onde morou entre 2006 e 2011 e conheceu vários ritmistas e pessoas ligadas ao Candomblé, como Carlos Matuzalém, um uruguaio envolvido com a cultura yorubá. A oportunidade de gravar o disco, no entanto, só aconteceu no Ceará, com os músicos Eduardo Madeira e Diego Ramires, donos de um estúdio e parceiros de palco. “O disco foi gravado em um mês, entre captação, mixagem e masterização”. O resultado é uma ode aos ritmos sagrados do Candomblé e um mergulho no universo ancestral afro-baiano, de uma forma contemporânea e particular.


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