• Um caldeirão de pura cultura baiana

    Forró na Bahia

    Artesanato baiano será exibido em Sala do Artista Popular no Centro Histórico




    A partir de 30 de agosto, na sede do Instituto Mauá, no Pelourinho, serão abertas as exposições das Salas do Artista Popular - SAPs, do município baiano de Barra e do povoado de Passagem, localizados na região do baixo-médio São Francisco. Criada na década de 1980, pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Populares da Funarte, a SAP é um programa de exposições voltado para difusão e comercialização da produção de artistas e comunidades artesanais tradicionais. Na Bahia, o projeto atualmente conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado, através do Centro de Culturas Populares e Identitárias – CCPI e realização do Instituto Mauá. 

    Durante o evento de abertura, artistas das duas localidades estarão presentes, informando suas técnicas e seus objetos, que serão comercializados. As exposições, que acontecem até 28 de setembro, buscam promover a divulgação do trabalho de comunidades, muitas vezes de difícil acesso, e o contato direto com o público. Isso significa, para os artistas e artesãos, oportunidades de expansão de mercado e condições de participação mais efetiva no processo de valorização e comercialização de sua produção. 

    Mais do que um espaço de compra e venda, a Sala do Artista Popular promove um diálogo entre realidades pouco familiares, a dos artesãos e do público, que tem a oportunidade de conhecer as peças em exposição e as técnicas artesanais empregadas. “Para nós é muito importante que o programa favoreça a criação de um novo mercado, possibilitando o escoamento do artesanato, ao invés de restringir o processo criativo dos artistas que realizam um trabalho autoral e identificador da sua região” relata o Coordenador de Preservação e Fomento do CCPI, Mateus Torres. 


    A cerâmica utilitária de Passagem e suas técnicas de produção 

    O artesanato no povoado de Passagem é caracterizado pelo seu caráter utilitário, como boiões, potes, panelas, alguidares, cuscuzeiras, caqueiros, moringas e fogões de cerâmica em variados tamanhos e formatos. Tais objetos são facilmente encontrados nos espaços da vida cotidiana e demonstram a relevância da produção de cerâmica nessa comunidade. 

    Em Passagem, a modelagem de um objeto cerâmico segue processo bastante peculiar: utiliza-se, como uma espécie de forma, uma peça já pronta, em geral rachada ou com algum problema que impeça seu uso no cotidiano. Após removido da forma, ele é completado segundo a técnica do rolete, alisado com cascabu, caroço seco de manga, ou com sabugo de milho. Depois de seca, a peça recebe o engobo, sendo totalmente revestida com tauá, pigmento mineral de coloração vermelha. A seguir, após novo período de secagem, é brunida com pano seco, para receber desenhos a mão livre, feitos com auxílio de um pincel de fiapo de pano, confeccionado pelas próprias artesãs. Finalmente, a peça está pronta para ser levada ao fogo e queimada. 

    A queima, uma das etapas mais importantes do processo produtivo local, pode ser realizada de duas maneiras: a céu aberto ou no forno. A chamada queima a céu aberto trata-se de uma modalidade de queima, de origem indígena, que de modo geral, é feita coletivamente. Em Passagem, é feita no chão forrado com chapas feitas de latas de flandres reaproveitadas. Sobre elas são colocadas as peças, cobertas com lenha, resultando uma estrutura compacta, que é recoberta com outras folhas de flandres. Ateado o fogo, forma-se então uma grande fogueira que, ao se extinguir, revela as peças, semiencobertas pelas cinzas. 

    Ao esfriarem, os objetos são então recolhidos pelas artesãs. Esse é o momento das boas e das más surpresas. A depender da experiência do grupo, da sabedoria na escolha do dia e da hora para a queima, do tipo de lenha e do modo como é arrumada, da colocação da lenha na fogueira, muitas vezes, ao se retirarem as peças, verificam-se quebras, rachaduras, trincas que podem mesmo comprometer toda a produção. 

    Esse é um tipo de queima tradicional que poucas comunidades produtoras de cerâmica no Brasil ainda preservam. As tonalidades azuladas e enegrecidas presentes nas peças, tidas como defeitos, são o resultado de uma antiga tradição indígena, o que agrega valor diferencial a esse tipo de artesanato. As manchas dessas peças são marcas de um passado imemorial. São marcas culturais. 


    De louça de carregação a louça de perfeição – o artesanato de Barra 

    Devido à excelência de seu porto, durante o tempo em que a comunicação na região se deu majoritariamente por via fluvial, Barra tornou-se importante centro de movimento comercial e social. O fluxo intenso de vapores e gaiolas que aportavam em Barra foi responsável pela comercialização de potes, moringas, filtros, talhas, vasos, enfim, dos vários produtos conhecidos na região pelo termo louça de barro. 

    Houve um período em que, pelo sistema de encomenda, a louceira confeccionava dúzias de potes à espera do dia certo, quando o barqueiro, passando pelo porto, carregaria a produção já acertada. ‘Louça de carregação’, dizem as ceramistas de hoje. Mal acabada, sem decoração, pois o aumento da produção, aliado à baixa remuneração pelo trabalho, ocasionou a simplificação das formas e seu consequente empobrecimento. 

    A construção de uma malha viária não favoreceu o município, que permanece até hoje praticamente isolado, dependente do transporte fluvial, pois o acesso por terra é extremamente precário. Diminuindo o número de barcos que aportavam em Barra, diminuíram também a produção de louça e o número de produtores. 

    O apoio à comercialização, realizada nas lojas do Instituto Mauá tem resultado no incremento à produção de potes, moringas, vasos para planta – localmente denominados caqueiros – cachepôs, mealheiros, moringa-moça (em formato de mulher), castiçais, imagens de santos católicos e de orixás do candomblé, e uma infinidade de outras peças que vêm sendo criadas pelos artesãos locais, a partir de suas próprias motivações ou seguindo a demanda dos compradores. As peças, chamadas de ‘louça de perfeição’, de extrema beleza e executadas com esmero, recuperaram a identidade com os objetos do passado e afastam-se daquelas denominadas de ‘louça de carregação’.


    Fonte: Texto & Cia

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